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  03/01/2006 - 10:02 - A esperança armou sua barraca na beira da estrada

“Podem levar nossos poucos pertences para onde quiserem. Nós não os tiraremos de nossos barracos, pois vamos permanecer na nossa terra, aqui na beira da estrada”.

 

Essa decisão da aldeia/comunidade  Kaiowá Guarani de Nhanderu Marangatu, naquela manhã de 15 de dezembro, projetou-se como uma estrela a guiar esse povo no seu exílio para a beira da MS-384, durante a sua quaresma, rumo à Terra finalmente Sem tantos Males.

 

A dor na estrada

 

Nada mais doído para um Guarani, do que privá-lo de seu espaço de vida e liberdade. Nada mais cruel do que devastar e destruir a mãe terra. Nada mais sofrido do que sentir seus filhos ameaçados em sua vida e seu jeito de viver Guarani. Nhanderusu, Tupã, os deuses os espíritos guerreiros estão mobilizados para impedir que essa desgraça aconteça, pois isso poderá acabar com o mundo. E eles apenas querem continuar sendo o que são e assim serem felizes e viver em paz.

 

Um dia após a expulsão da terra um filho esperado, morre ao nascer. Por causa da prepotência e truculência, seu nascimento e morte foram antecipados. 

 

Dois dias após a expulsão, em  meio à poeira e sol sufocantes, uma criança de dois anos, não resiste às intempéries e desnutrição e morre. É velada na beira da estrada.

 

Passa-se mais uma semana de ameaças enquanto improvisados barracos de umas poucas varas e um pedaço de lona preta cobrem uns poucos metros quadrados, suficientes para o refúgio temporário. Em todos eles dormem lado a lado a indignação e a esperança.

 

Quando Dorvalino, ao lado da porteira e da armação de um barraco, vai visitar os parentes, é  baleado por um segurança da fazendo e morre logo depois. É véspera de Natal. Sentimentos de perplexidade. Jesus que nasce e morre é anunciado e velado na beira da estrada. O ritual de chegada e despedida toma conta do acampamento. A festa da esperança estava preparada. A dor amarga da despedida de um companheiro que teve sua vida colhida em meio à luta pela terra, só é superada pela certeza de que será sangue que fará chegar mais perto terra prometida.

 

No caminho da esperança

 

“Como poderemos cantar e dançar na poeira, calor, ameaças e mortes à beira da estrada?”

 

Ligeiro a notícia da morte de Dorvalino correu o Brasil e o mundo. O recém empossado ministro dos Direitos Humanos, Paulo de Tarso Vannuchi, é atingido pelo sangue Kaiowá Guarani derramado, e como se fosse uma espécie de batismo de fogo vai ao palco dos acontecimentos. Ali chega dia 27, com uma comitiva integrada pela Polícia Federal e Funai.

 

E no palco da morte vai sendo semeada esperança. Não tanto pelas palavras e promessas abundantes, mas pelo sentimento brotado dos barracos improvisados, armados apenas da certeza de que serão provisórios em sua precariedade, serão o tempo da passagem para a terra que já lhes pertence e da qual estão temporariamente privados. O local do tiro, o local onde Dorvalino caiu já quase sem vida e a terra que cobre seu corpo, ao lado de Dom Quitito e na terra de Marçal, certamente calaram fundo no coração de todos os que ali estiveram.

 

Que seja breve

 

Assim que começaram a brotar os barracos, não faltaram as tentativas de livrar-se de tão incômoda realidade. Falou-se em transferir os índios para uma terra do Exército, na região. Sugeriu-se transferir para outros espaços provisórios, longe dos olhares constantes de transeuntes. Enfim, buscou-se esconder a dramática situação. Porém a resposta dos índios foi muito clara e incisiva. “Não estamos aqui porque queremos. Nos jogaram aqui, e aqui ficaremos até voltarmos para nossa terra”.

 

São dezenas os acampamentos de sem terra e dos expulsos da terra, índios e não índios, ao longo das estradas do Mato Grosso do Sul. Porém Nhanderu Marangatu, no município de Antonio João tem, nesse início de 2006, um forte conteúdo emblemático, pois representa a violência da expulsão da terra e das contradições  do sistema de acumulação da terra e dos poderes da República – um reconhece a terra indígena e outro os expulsa da mesma.

 

Quantos terão ainda que morrer, vítimas das violências e da situação desumana em que estão jogados os Kaiowá Guarani de Nhanderu Marangatu, para que seus filhos possam à sua terra retornar?

 

Quando fevereiro chegar, os Guarani do Continente celebração a memória de Sepé Tiaraju e de todos os que deram a vida na luta pelo seu povo... E à sua terra os Guarani poderão retornar! E a Terra Sem Males voltará a acolher seus filhos amados!

 

São Paulo, 3 de janeiro de 2005

 

Egon Heck

Cimi Regional Mato Grosso do Sul

 

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