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  18/04/2007 - 15:17 - Abril Indígena: Quando a indignação e os sonhos acampam

“Assassinaram Galdino, mas não calaram a voz do movimento indígena”.

 

“Convém sempre reafirmar que Terra Indígena não é fazenda; não é agro-negócio; não é campo de prospecção e exploração petrolífera; não é unidade de conservação, não é Parque Nacional, não é ou área protegida; não é paraíso turístico... Terra Indígena é Vida. Integrados, colonizados, isolados, marginalizados e urbanizados somos parte unidos em defesa dos nossos direitos”.

(Documento dos Povos e Organizações Indígenas do Acre, sul do Amazonas e Noroeste de Rondônia- 14/04/07).

 

O segundo dia do Acampamento Terra Livre foi marcado pela marcha guerreira em memória dos lutadores que tombaram na defesa de seus povos, em especial na memória dos 10 anos do assassinato bárbaro de Galdino Jesus dos Santos, em Brasília. Jovens ricos foram brincar de fazer chama humana ateando fogo no corpo do índio, que estava deitado num banco do ônibus.

 

Lembrança dos que morreram na luta

 

A marcha até a Praça Galdino, foi um momento muito intenso, forte e bonito. Hora de lembrar os milhões de heróis nativos nestes mais de 500 anos de resistência e massacre. As inúmeras faixas e os cartazes com os 50 nomes de lideranças assassinadas nos últimos anos em todo o país, falaram alto. Durante todo o percurso os povos do nordeste expressaram sua revolta e indignação através do Toré. Outros marchavam silenciosos nos passos da lembrança dos que deram a vida para que hoje essas centenas de indígenas estivessem aqui. As cinco paradas, em pontos significativos do caminho, lembraram os guerreiros que tombaram. “Nós Pataxó Hã-Hã-Hae não calamos a nossa voz, estamos levando adiante a luta pela terra, pela qual Galdino deu sua vida”, disse Luis Titiá. “Seu sangue é semente de novos guerreiros”, respondiam os caminhantes.

 

O tempo foi bem melhor do que se poderia esperar. Uma fina chuva foi refrescando os corpos e o asfalto. O céu coberto por densas nuvens, acompanhou toda a trajetória. Depois de uma hora e meia, foi a chegada emocionada à Praça. Ali todos permaneceram por mais de uma hora fazendo rituais de purificação do ambiente, de limpeza e pintura do monumento em memória de Galdino.

 

O simbolismo dos atos foi de forte expressão, carregados de emoção e revolta. A dignidade insurgente dos povos indígenas se fez presente nas ruas de Brasília, em véspera de seu 47º aniversário. No início da caminhada o locutor indígena anunciou: “Lula, nossa paciência esgotou”.

 

Nos bastidores da aldeia

 

A vida na Aldeia Planalto vai muito bem, obrigado. Mas também tem lá seus contratempos, seus lados divertidos e momentos de tensão.

 

Durante a plenária para apresentação dos principais problemas e impactos advindos do PAC, uma senhora desconhecida, sentada na primeira fileira, interrompeu o representante do Cimi na coordenação, Saulo Feitosa: “O senhor é estrangeiro?”. “Mas como meu sotaque nordestino soa a estrangeiro?”, retrucou Saulo. E foi armado o bafafá. Foi acionada a comissão de segurança que retirou a “estranha” que estava tumultuando.

 

À noite, como ninguém é de ferro, depois das atividades, o forró rolou solto. Com direito a prorrogação. Neste meio de tempo veio uma pancada de chuva. Os forrozeiros não contavam com o detalhe de que quando retornaram aos barracos, alguns estavam com a roupa toda encharcada. Mas todos deram o jeito de enrolar o resto da noite no sono.

 

O chimarrão também está presente. E foi tão bem contemplado, pois existe até um panelão permanentemente com água quente. Mas ba tche!  Ainda bem que é bebida indígena, uma contribuição Guarani para a economia e bem estar físico e mental da gauchada e tantos outros mais por esse mundo afora.

 

O que está devagar é o campeonato do planalto. Tinha tudo para sair daqui o campeão das nações indígenas. Mas esse ano, diferentemente das anteriores, parece que nenhuma pelada vai sair.

 

Hoje cedo, ao redor de uma mesa branca, na brisa da esplanada, sentaram-se alguns participantes e anunciaram em alto e bom som, que ali aconteceria, em breve, um ato importante – o café da manhã com o Presidente. Mas ele não se fez presente.

 

Tem de tudo. Por ocasião dos rituais no memorial Galdino, uma senhora não índia passou a dançar e falar em línguas estranhas, gritando: “Vem Lula, vem ver!”.

 

A indignação, a luta e o sonho continuam. Amanhã será o último dia nesta aldeia. Estão previstos contatos importantes com os presidentes do Senado Federal, Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e com o presidente Lula.

 

Brasília, véspera do dia do índio.

 

Egon Heck

Cimi – Regional Mato Grosso do Sul

 

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