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Indígenas ocupam salas de cinema: Martírio, de Vincent Carelli, estreia hoje em 19 capitais

Inserido por: Administrador em 13/04/2017.
Fonte da notícia: Assessorias de Comunicação Cimi


Patrícia Bonilha, da Assessoria de Comunicação

O filme Martírio, de Vincent Carelli, traz para o debate a resistência dos Guarani Kaiowá diante ao genocídio do seu povo. Com estreias marcadas para hoje,13, em 19 cidades do país, o documentário denuncia os sucessivos massacres e violências contra os povos indígenas. Com aproximadamente 50 anos de indigenismo, Vincent Carelli afirma que a resiliência secular dos povos nativos nos indica como resistir à atual conjuntura, além disso, eles nos oferecem referências para a construção de um outro futuro para a humanidade.


A Assessoria de Comunicação do CIMI conversou com o cineasta. Na entrevista publicada originalmente no jornal Porantim, edição de outubro, dentre outros assuntos, Carelli fala também sobre o terceiro filme de sua trilogia, Adeus, Capitão, que já está em fase de produção.

Os indígenas mostram o caminho

Filho de pai brasileiro e mãe francesa, Vincent Carelli nasceu em Paris e veio para o Brasil com cinco anos. Criado em São Paulo, a primeira vez que teve contato com indígenas foi através de um vizinho que era missionário dominicano. Ele tinha 16 anos, e a experiência aconteceu no Pará, com o povo Xikrim. Fascinado por aquele primeiro convívio com os indígenas, desde então sua vida está profundamente vinculada aos povos nativos do Brasil. Vincent (que deve ser pronunciado “Vançant”) chegou a cursar Ciências Sociais por um ano, mas percebeu que a academia não era seu caminho e voltou pras aldeias. Após trabalhar na Fundação Nacional do Índio (Funai) por dois anos, fundou, em 1979, com um grupo de antropólogos a organização Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Em 1986, criou o projeto Vídeo Nas Aldeias (VNA), que se tornou um importante instrumento de expressão das diversas identidades indígenas, além de reflexão sobre suas visões de mundo. Vinte anos depois, seu documentário Corumbiara obteve amplo reconhecimento. Prestes a completar 50 anos de indigenismo, seu último filme Martírio foi ovacionado no último Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro de 2016. A partir de um amplo histórico fundamentado em dados oficiais, arquivos históricos e imagens produzidas por ele por mais de 10 anos, ele denuncia mais de um século de omissão diante do genocídio contemporâneo do povo Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul.

Porantim – O que você observa de mais crucial nestes quase 50 anos de convivência com diversos povos indígenas no Brasil?

Vincent Carelli – O Brasil mudou muito neste período, pra frente e pra trás. O movimento indígena cresceu, ganhou muito em protagonismo. Quando comecei, o controle da Funai sobre os índios era muito grande e o paternalismo autoritário extremamente desmobilizador politicamente. Ainda durante a ditadura, o engajamento da sociedade brasileira, do Cimi [Conselho Indigenista Missionário] e das ONGs trouxe para a pauta nacional a temática indígena. O movimento contra o decreto de “emancipação” foi um marco nesta história, que veio a ser coroado com a Constituinte de 88. Mesmo não tendo sido regulamentado até hoje, o Estatuto do Índio pelo menos colocou por terra o velho estatuto pelo qual o índio era considerado praticamente incapaz. A Constituinte estabeleceu, dentre outras coisas relevantes, a intermediação do Ministério Público em conflitos de interesse entre o Estado e as comunidades indígenas e o direito dos índios de terem representatividade jurídica. Apesar disso, a Funai demorou mais de uma década para aceitar a legitimidade das associações indígenas na representação de seus povos. A Funai sempre foi marcada pela sua herança autoritária militar, por pouco investimento e limitada autoridade. Além disso, os índios entenderam que precisavam assumir seu protagonismo e cuidar dos seus próprios interessses, e não ficar esperando que o Estado lhes concedesse algum direito. Hoje estamos vivendo novamente a destruição causada pelos grandes projetos, que vivemos na ditadura. Mas, atualmente, sem o recurso de empréstimos do Banco Mundial, do BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento], que foi muito importante em épocas passadas. Como o governo militar dependia dos empréstimos do Banco Mundial e do BID, isso permitia que pressionássemos estes bancos para exigir condicionantes e reparações frente aos impactos dos grandes projetos. Hoje, no entanto, o Brasil é que empresta dinheiro para estas instituições e esta estratégia perdeu sua eficácia.

Porantim – Mesmo considerando a diversidade de povos, é possível afirmar que os indígenas têm um olhar particular, em relação aos não indígenas?

Vincent Carelli – A narrativa baseada em uma visão de dentro, só eles podem ter. Esta perspectiva intimista, tanto do dia a dia como das lutas indígenas, tem toda uma memória, uma afetividade, uma emoção, que é só deles. Recentemente foi lançado um filme que mostra, em uma longa tomada, um índio no Mato Grosso do Sul em um amplo campo de soja, com apenas um pé de árvore, único. O índio fica tecendo considerações sobre o significado daquilo. E tudo na língua nativa. Os mais velhos só conseguem se expressar na sua própria língua, geralmente. Só eles têm esta memória e vivência. Isso já significa totalmente outra coisa. O que o Vídeo nas Aldeias almejou há 30 anos era isso: hoje tem indígena filmando no Brasil todo. O que a gente reclama é que estamos paralisados na formação. Temos índios fazendo registro e os primeiros cineastas indígenas que formamos ganharam muita visibilidade. Isso fez com que no Brasil haja muita gente interessada em apoiar produções indígenas e o cenário audiovisual brasileiro tem reconhecido a importância desta produção. Mas falta muita coisa, como um mapeamento nacional, um grande portal do cinema indígena, além de políticas públicas. Os índios não podem concorrer no mercado de editais da mesma forma porque dependem da escrita e não têm esse traquejo. Temos que formular outras vias de acesso a essa produção e aos processos de formação também, para que as produções cresçam com qualidade e possamos ampliar o escopo da difusão desses trabalhos, absolutamente necessários para povoar o imaginário brasileiro, tão distante da realidade indígena. Mas na conjuntura atual não dá nem pra pensar nisso.

Porantim – Fale um pouco sobre a produção feita por não indígenas...

Vincent Carelli – A produção feita por não indígenas tem de tudo, tem coisas muito boas e também tem outras equivocadas. Mas não podemos entrar nessa de coibi-la. Este tipo de apropriação cultural vem sendo muito discutido no Canadá recentemente. A própria produção indígena é fruto de uma parceria entre indígenas e não indígenas. Acho que o desconhecimento da realidade indígena é tão grande e o desinteresse sobre ela tão amplo que quanto mais produções indígenas ou sobre os indígenas forem feitas melhor. Não cabe um apartheid, um julgamento global sobre o fenômeno. Acho bastante positivo o interesse, principalmente, das novas gerações. Outra dimensão fundamental é levar esta produção pras salas de aula. Desde 2009 o VNA trabalha com esta dimensão de levar as diversas realidades dos povos para as escolas.

Porantim – E como você avalia o chamado “cinema de índio”?

Vincent Carelli – Sem dúvida ele traz uma inversão nesta perspectiva de exotizar os índios, do “nossa, que estranho!”, explicitando um estranhamento. O olhar indígena humaniza os índios. Ele é intimista, coloca as coisas que nos parecem estranhas no seu devido lugar e contexto. E qualquer público é capaz de perceber isso. Desde o começo, nos primeiros filmes de oficina do VNA o que chamava muita atenção era justamente a clara surpresa do público no sentido de reconhecer e explicitar que nunca tinha tido acesso à realidade indígena com um olhar de dentro. E isso toca muito as pessoas, cria empatia.


"Há um grande empatia do público com o filme devido a este retrato atual da situação do país. O filme mostra que os indígenas resistem há mais de 500 anos, e é isso que precisamos fazer agora” Foto: : Wilson Dias/Agência Brasil

Porantim – Os filmes atuais têm contribuído para dar visibilidade à realidade dos povos, especialmente as violações e violências sofridas por eles no Brasil?

Vincent Carelli – Sabemos que a realidade é brutal e a grande questão por trás dos dos interesses e jogos que geram e mantêm o preconceito e a discriminação contra os povos  é a disputa por recursos naturais, especialmente a terra. O desafio de quem se dedica a dar visibilidade a esta realidade e seus contextos é ampliar o público e ser visto não só pelos amantes dos índios, que já estão do nosso lado. Ampliar o universo de difusão deste material. Na medida em que se consegue isso, se potencializa o efeito. E para isso, repito, o envolvimento das escolas é muito importante. Fazer com que os jovens em formação tenham este contato amigável, sedutor com a realidade indígena. E, nesse sentido, tem que haver a preocupação de que a produção não pode ser um panfleto chato, e de que tem que ter qualidade cinematográfica. Se não tiver esta dimensão, não atravessa fronteiras, fica num circuito muito fechado e tem pouca eficácia. Mesmo quando os indígenas fazem um cinema de dimensão mais cultural também é um cinema político. Para as minorias, a questão da identidade - não a genérica, “do índio”, mas a específica, dos povos -, a identidade étnica cultural é a mais política que tem. Não é porque está retratando o dia a dia, o xamã, os aspectos daquela comunidade que não é um gesto político. Ao contrário, pode ter até mais eficácia que o panfleto porque tem capacidade de gerar empatia, interesse, seduz, causa curiosidade. Está havendo uma nova valorização dos povos nativos, não só no Brasil. É um fenômeno mundial, e está relacionado com esta catástrofe ambiental anunciada, com a crise civilizatória do capitalismo. O contraponto de vida dos povos nativos, quaisquer que sejam eles, tornou-se uma referência para gerar uma reflexão crítica sobre a crise pela qual a gente tá passando. Este é o principal motivo deste interesse renovado pelos povos nativos e por seus modos de vida.

Porantim – Há possibilidades de Martírio ser exibido também em salas do circuito comercial?

Vincent Carelli – Pela primeira vez foi aberta esta possibilidade, mas estou em dúvida porque é um processo que demora e eu teria que ficar segurando o filme enquanto há uma demanda grande das pessoas para ver e conhecer o filme. Por outro lado, seria uma ótima oportunidade ampliar para um público que, normalmente, não assistiria a um filme “de índio”. Temos que pensar o que vale mais a pena. Agora, certamente vai para a TV. O Canal Curta sempre esteve interessado. Talvez, como o filme é longo, seja preciso adaptá-lo em um formato de minissérie de cinco capítulos. Outra possibilidade é este circuito de festivais. Depois da repercussão do festival de Brasília, notícias sobre Martírio estão sendo publicadas em quase todas as capitais. Os movimentos sociais já estão pedindo pra gente liberar o filme e, além disso, a atual conjuntura demanda uma ampla divulgação. Estamos também trabalhando com o Mestre e o Divino, mas é difícil levar às pessoas, já que não temos uma máquina de divulgação na mão, como é próprio dos filmes comerciais. Temos que aproveitar a repercussão de Martírio pela urgência e importância de levar este tema a frente. Vamos fazer um lançamento na Aty Guasu, em Dourados, e teremos pelos menos mil cópias para os índios, também vamos distribuir pra militância, pro Cimi. Temos que consolidar as convicções e os argumentos da militância em relação ao genocídio, irmos à raiz do problema, às questões centrais, que são, primeiro, o golpe jurídico que o marco temporal representa em relação às demarcações das terras indígenas. As expulsões dos povos indígenas de suas terras tradicionais constituem um crime de humanidade, que não prescreve. Não há como zerar a história dos índios, os crimes cometidos que fizeram com que a maioria dos Guarani-Kaiowá, por exemplo, não estivesse nas suas áreas em 1988. Quem não estava, era porque tinha sido expulso, e eles não podem ser punidos porque tinham sido expulsos. A segunda questão central é que o Estado precisa assumir a sua própria responsabilidade. Se tivesse coragem de admitir os erros, como fez a Austrália, o Canadá, alguns países nórdicos, isso modificaria o rumo de todos os processos judiciais que estão correndo. Teria uma enorme repercussão no campo jurídico... Mas o Brasil não conseguiu fazer nem uma Comissão Nacional da Verdade real, um ajuste de contas com a ditadura e os crimes ocorridos nela, então, dificilmente vai reconhecer a necessidade de assumir a sua própria responsabilidade em relação aos povos indígenas. Nesse sentido, as denúncias internacionais que os Guarani-Kaiowá têm feito na Europa são fundamentais, já que eles compram nossa soja e nosso bife. O caso Guarani-Kaiowá merece um tribunal internacional.

Porantim – No filme você destaca a religiosidade dos Guarani e Kaiowá no processo da resistência. Fale um pouco mais sobre isso.

Vincent Carelli – Os povos nativos vivem com intensidade a sacralização, consideram-se parte da natureza. No caso Guarani-Kaiowá, o que mantém a resistência deles é justamente a força religiosa. É daí que vem a força, onde está o segredo, o motor da sua histórica resiliência. A dimensão da espiritualidade na vida deles é realmente impressionante e me marcou profundamente.

Porantim – Adeus, capitão, o último filme da trilogia está em fase de produção?

Vincent Carelli – Sim. A ideia é que esses três filmes proponham uma reflexão sobre a complexa realidade indígena através da minha trajetória indigenista, dos casos emblemáticos da política indigenista brasileira que acompanhei, colaborei, trabalhei. Há quem ame e há quem odeie os índios no Brasil, mas, geralmente, ambos os mitificam. Por isso é importante aprofundar e tentar entender toda a sua complexidade. A primeira filmagem de Corumbiara [que retrata o massacre de índios no sul de Rondônia] foi em 1986; a de Martírio, em 1988; e a primeira filmagem de Adeus, Capitão foi também em 1986. Neste último caso, trata-se da realidade de um povo que foi quase extinto, os Gavião Parkatêjê, do Pará. Eles conseguem se recuperar, ganham autonomia pra gerenciar seus castanhais mas, posteriormente, são devastados pelos grandes projetos da Amazônia, como a Hidrelétrica Tucuruí e a Ferrovia de Carajás. Esta questão é muito atual hoje. O Brasil investe muito pouco na Funai, mas quando tem interesses econômicos envolvidos, derramam dinheiro. Muito é usado no sentido de cooptar, de quebrar a resistência dos povos, pra garantir a construção de hidrelétricas, por exemplo. Isso desorganiza avassaladoramente, e coloca muitas dificuldades pra comunidade. O filme aborda a forte entrada do capitalismo, do dinheiro, do consumo numa sociedade igualitária. Ouvimos os Gavião, o que eles pensam. É uma reflexão e complexificação sobre essas mudanças históricas no Brasil e, novamente, sobre a relação do Estado Brasileiro com os povos indígenas.

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