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Carta dos Povos e Comunidades Tradicionais Pelo Bem Viver

Inserido por: Administrador em 30/05/2017.
Fonte da notícia: Articulação Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais



"Somos contra esse modelo de morte que impera no país, que retira diretos dos menos favorecidos para sustentar a ganância do capital".

Quilombolas, geraiseiros, pescadores, índios, entre outros povos tradicionais, estiveram reunidos entre os dias 22 e 24 de maio de 2017, em Luziânia (GO), no II Encontro Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais para discutir o contexto político atual do país.

Em carta divulgada ao final do Encontro, os povos denunciam a violência enfrentada pelas comunidades e apontam o Estado brasileiro como um dos principais opressores e causadores dessa violência. O documento também critica a criminalização sofrida por funcionários da FUNAI, do INCRA e pelos missionários do CIMI, devido aos indiciamentos da CPI FUNAI/INCRA.

Os participantes reforçam a necessidade de fortalecer a articulação entre os povos como único caminho para garantir o Bem Viver e para combater a violência sofrida.

Confira a Carta na íntegra:

II Encontro Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais
22 A 24/05/2017 – Luziânia (GO)
Carta dos Povos e Comunidades Tradicionais Pelo Bem Viver

Nós, quilombolas, indígenas, pescadores, sertanejos, geraiseiros, faxinais, agentes da CPT, do CPP e do CIMI, ribeirinhos, seringueiros e outros irmãos, reunidos no II Encontro Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais, entre os dias 22 e 24 de maio de 2017, em Luziânia (GO), manifestamos publicamente nosso repúdio a todo tipo de violência sofrida pelo nosso povo, especialmente nos últimos tempos, em que testemunhamos massacres, como o ocorrido com o povo Gamela em Viana (MA), no dia 30 de abril e aquele ocorrido hoje pela manhã, no estado do Pará em que dez vidas de trabalhadores rurais foram ceifadas violentamente numa desastrosa ação da polícia.

A violência contra o nosso povo só tem crescido. Os casos notificados não são capazes de contabilizar nosso sofrimento, as estatísticas não dão conta de expressar as nossas perdas. Convivemos diariamente com ameaças de morte, assassinatos de nossos irmãos e irmãs, atentados contra a vida, negação e violação dos nossos direitos, desrespeito à nossa cultura e ao nosso modo de viver e todo tipo de agressão, preconceito e discriminação. Temos sido vistos como vilões por lutarmos pelo direito de permanecer na terra, que é nossa, cultivando nosso alimento, fortalecendo e garantindo a manutenção da nossa cultura. 

O Estado brasileiro, aliado aos interesses dos opressores e sendo ele também um opressor, sempre negou nossos direitos, e, por muitas vezes, esteve à frente dos atos de violência contra nós. Nossos territórios foram invadidos, nossa luta criminalizada e nosso direito de viver arrancado pelas mãos de fazendeiros, latifundiários, empresas, grileiros, grandes empreendimentos econômicos, grandes projetos de “desenvolvimento”, entre muitos outros.

Os dados recentemente apresentados pela CPT denunciam um cenário de massacre contra indígenas, quilombolas, pescadores e pescadoras, sertanejos, quebradeiras de coco, faxinais, assentados, ribeirinhos, seringueiros e muitos outros irmãos. Do ano de 2014 até hoje foram registrados 173 assassinatos no campo no Brasil, a maioria, sem esclarecimentos e punição aos culpados. Impera a impunidade. Não podemos mais aceitar essa situação.

Somos contra esse modelo de morte que impera no país, que retira diretos dos menos favorecidos para sustentar a ganância do capital. Que criminaliza aqueles que lutam pela justiça social e ambiental em favor daqueles que destroem a vida. A CPI da FUNAI e INCRA, proposta, presidida e relatada por latifundiários, demonstra um sistema politico subserviente aos caprichos dos “poderosos”, sem o mínimo de respeito ou preocupação com o povo que sofre.

Por isso propomos e lutamos por um modelo de vida. Por isso, mais uma vez, denunciamos toda violência sofrida por nosso povo. Por isso nos articulamos e nos organizamos em luta permanente. Não aceitamos mais esse violento projeto colonizador, escravista e explorador. Não aceitamos mais ser massacrados. Não aceitamos abrir mão dos nossos territórios de vida. Não aceitamos ver tombar nossos irmãos e irmãs, nem sermos assombrados por ameaças de morte, atentados e atos de violência orquestrados pelo latifúndio, por empresas ou quem quer que seja.

Reforçamos aqui a necessidade de deixar florescer nossa articulação, fortalecer esta luta, pois ela é nosso único caminho. Acreditamos na força da união do nosso povo, que sempre lutou, sempre resistiu e sempre resistirá contra todos os grilhões, toda forma de violência. Queremos viver. Queremos territórios livres pelo BEM VIVER dos povos e comunidades tradicionais.

Luziânia (GO), 24 de maio de 2017.

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