23/01/2018

Munduruku é baleado durante ação em defesa da Terra Indígena Praia do Mangue

Raimundo Saw Munduruku correu com os demais, no último domingo, 21, mas um dos tiros o acertou. O policial militar à paisana, suspeito de realizar os disparos, fugiu

Foto do site Giro Portal Itaituba do local onde o Munduruku foi baleado

Por Renato Santana, da Ascom/Cimi

Raimundo Saw Munduruku correu com os demais, na tarde do último domingo, 21, mas um dos tiros acabou acertando a parte posterior de sua coxa. O policial militar à paisana, suspeito de realizar os disparos, fugiu sem pagar o pedágio aos indígenas – acusados de obrigar a população a deixar dinheiro na aldeia para poder passar. Os valores são de R$ 10,00 para carros e R$ 5,00 para motos. O Munduruku foi levado para o hospital de Itaituba (PA) e não corre risco de morte. “O tiro era pra ter pegado na cara” e “parabéns ao policial”, comentam alguns moradores de Itaituba em uma rede social (veja também nas imagens).

Este é o resumo da notícia que corre na cidade localizada às margens do rio Tapajós e entrecortada por um dos trechos empoeirados da Transamazônica. “Fui vítima deles. Paguei 5 reais. Bando de pilantras”, diz outro comentário na mesma rede social. Vítima? A narrativa está longe de corresponder aos fatos. O ramal onde o ataque a tiros ocorreu está e rasga o interior da Terra Indígena Praia do Mangue, em Itaituba, homologada em 1986 com 30 hectares. O poder público nada fez, apesar dos protestos dos Munduruku, para coibir a invasão ao território.    

Os pariwat, maneira como o povo Munduruku se refere aos não indígenas, usam a estrada de terra como via para acessar balneários, sítios e fazendas localizados do outro lado da área. Não há limites de velocidade, fiscalização para coibir motoristas embriagados e qualquer respeito ao fato de se tratar de um território tradicional. Em Itaituba, cujos bairros fazem divisa com a terra, o ramal é considerado uma rua como qualquer outra do município. Os Munduruku decidiram dar um basta e refrear a passagem descontrolada de estranhos com um pedágio. Desde então são ameaçados, inclusive pelo autor dos disparos, além de alvos comuns de racismo e preconceito.

“Se chegou no limite quando uma criança quase foi atropelada. Esse ramal passa por uma aldeia. O povo vive ali, as crianças brincam. É a casa, o quintal delas. A sociedade itaitubense entende errado nossa situação, postam acusações infames sobre nós, apontam para discriminação preconceituosa, ameaçam constantemente nas redes sociais. Tudo porque a ela não é passada a informação de que se trata de terra indígena, ou seja, área da União de usufruto exclusivo nosso”, diz Arlisson Ikon Munduruku.

 

Captura de tela do perfil Giro Portal realizado às 16h26 desta terça, 23.

 

Conforme o indígena, os Munduruku utilizam o ramal para ir à roça, ao rio Tapajós e ao lago (atividades de pesca). “Em nossa aldeia não tem mais como caçar por se tratar de um território pequeno e a cidade cercou a aldeia dos dois lados, esquerdo e direito. Vivemos numa espécie de confinamento”, explica. Arlisson Ikon diz que quando os pariwat voltam alcoolizadas das visitas aos balneários e sítios, causam transtornos e perigos variados aos Munduruku. “Uma via que nos serve para garantir algum sustento, locomoção interna e contato com o mundo exterior se tornou um transtorno. Por isso o pedágio: a ideia é usar o recurso para um fundo cujo objetivo é cercar a aldeia. Na primeira vez já houve confronto”.

Os Munduruku então decidiram consultar a Fundação Nacional do Índio (Funai). De acordo com os indígenas, os servidores da Funai afirmaram que nenhuma lei os impede de fazer o pedágio na medida em que a passagem se dá no interior do território tradicional homologado. Conforme a Constituição Federal, uma terra indígena é de propriedade da União com usufruto exclusivo do povo que a ocupa. Os Munduruku, portanto, decidiram continuar com a iniciativa. Na segunda vez, há pouco mais de uma semana, o policial fez a primeira ameaça. Na ocasião, mostrou que andava armado.

No último final de semana, um novo pedágio foi realizado. Um grupo de Munduruku estava no local. O policial militar tentou passar sem pagar. Ao receber a negativa dos indígenas, deu ré no carro e sacou a arma de fogo apontando-a para o grupo, que se dispersou. Mesmo sem resistência, conforme os Munduruku, o policial fez os disparos atingindo a perna de Raimundo Saw. De acordo com a imprensa local, a declaração do atirador é de que ele se sentiu ameaçado pelos arcos e flechas dos indígenas.

Nova estrada     

Na tarde desta segunda-feira, 22, os Munduruku estiveram reunidos com o prefeito de Itaituba, Valmir Climaco de Aguiar. Ficou decidido pelo fim dos pedágios, mas com o apoio da Prefeitura que deverá instalar lombadas, sinalização, controle de acesso e policiamento até que uma nova estrada seja aberta para os pariwat. “O prefeito frisou que não se trata de uma rua do município, mas de área federal e que é preciso ter respeito ao lugar em moramos”, informa Arlisson Ikon. “Caso não seja aberta uma outra estrada, vamos fechar a que passa no interior da nossa terra (…) Há um risco grande contra nossa comunidade. Não podemos aceitar que em algum momento uma criança nossa, ou qualquer outra pessoa, seja atropelada”. Para os Munduruku, a aldeia tem o direito de controlar quem entra e quem sai da terra – e qual o comportamento adequado deve-se ter quando nela estiver.

Captura de tela realizada no perfil do Giro Portal às 16h20 desta terça, dia 23

Fonte: Assessoria de Comunicação - Cimi
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